B.S.B.H. Orfãos da nação
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Texto por Pinduca retirado do blog
http://pinducasblog.blogspot.com.br/
Eu tenho uma teoria sobre o disco
Órfãos da Nação, lançado em 1989 pelo grupo
BSB-H: acho que ele é a ponte entre o rock brasiliense dos anos 80 (
Legião, Plebe, Capital, Escola de Escândalo, etc) e dos anos 90 (
Raimundos, Oz, Little Quail, DFC, Os Cabeloduro e outros). A minha posição se baseia no fato de que o
BSB-H, à época formado por
Alex Podrão (vocal),
Paulo Delegado (baixo),
Grillo (guitarra) e
Sérgio Bolacha
(bateria), já estava antecipando muito do rock pesado que iria
preponderar nos anos 90, mas ainda com alguns traços da década anterior.
Órfãos da Nação é o segundo disco do
BSB-H, banda que nasceu de uma espécie de dissidência mais pesada do
Detrito Federal. A estréia deles aconteceu em 1986, com o lançamento do álbum
Ataque às Hordas do Poder, split com a banda
Stuhlzapfchen Von "N" (que cantava em alemão (!) e viria a se tornar depois o
ARD).
Se o primeiro disco o
BSB-H era mais hardcore, no
Órfãos da Nação a banda veio com uma produção mais elaborada e um som pautado no moderno estilo crossover, de bandas como
DRI, English Dogs e, principalmente,
Suicidal Tendencies. Esse passo à frente, fez com que eles deixassem de lado o punk mais clássico que havia influenciado
Legião
& Cia e se alinhassem ao som que a molecada estava curtindo na
época. E quem seriam esses moleques? Exatamente os caras que formariam
(ou já haviam formado) as bandas que despontariam em meados dos anos 90.
Além do som, outras variáveis contribuem para essa condição de elo entre passado e futuro do disco
Órfãos da Nação. Em primeiro lugar, a temática das letras estava mudando: ainda existia o cunho de protesto político e social (
Dead Neves e
Digo Não), mas já surgiam músicas que falavam de skate, por exemplo (
Skate ou Morra, Skate não é Crime e
Power Banks).
Neste ponto, o próprio visual da banda deixava de lado a influência do
vestuário punk e pós-punk inglês e se aliava à descontração californiana
(bandanas, bermudas, etc).
No lado mercadológico, o
BSB-H também apontava para novos rumos:
Órfãos da Nação foi lançado por uma gravadora independente, a paulista
Devil Discos, revelando uma alternativa às majors. Além disso, o vocalista
Alex Podrão, ao contrário dos membros de
Legião, Capital e
Plebe,
era figurinha fácil na cidade. Você podia encontrá-lo num ponto de
ônibus ou na loja da Devil, no Conic. Isso, para um garoto de 15/16
anos, não é qualquer coisa: afinal de contas,
Podrão era aquele mesmo cara que havia aparecido na TV Globo, no programa
Mixto Quente, no verão de 1985/86, tocando com o
Detrito Federal.
É lógico que o
BSB-H não estava sozinho nessa jornada rumo aos anos 90. Outras bandas da cidade, como
Volkana, P.U.S., Filhos de Menguele e o próprio
Detrito Federal (liderado por
Cascão),
também tiveram a sua fatia na história, mas nenhuma dessas conseguiu
materializar um produto tão fechado concetualmente e num momento tão
oportuno quanto o
BSB-H, em
Órfãos da Nação.
Não
se pode esquecer também que todo um cenário de rock independente estava
se estabelecendo no Brasil – principalmente em São Paulo. Do lado do
rock pesado, bandas como
Grinders, Lobotomia, Não Religião, Mercenárias, Ratos de Porão e outras também já estavam na mesma sintonia do
BSB-H,
deixando de lado as velhas influências dos anos 80 e com um pé nos
90’s. Além disso, uma outra corrente de bandas mais "leves", como
De Falla, Kães Vadius, Violeta de Outono, Vzyadoq Moe e
Picassos Falsos, também já traziam algo diferente do que se vira no começo da década. E não se pode esquecer do
Sepultura,
que trafegava numa via completamente inovadora e exitosa para o mercado
brasileiro: cantando em inglês e lançando pela gravadora holandesa
Roadrunner. Foi a mistura de isso tudo que acabou desembocando no que
viria a se tornar mainstream no nos anos 90.
De qualquer forma, no meu ponto de vista, a garotada mais nova não tinha tanto saco para o rock cabeça de um
Vzyadoq Moe, Akira S ou
Fellini. Essas bandas vieram a influenciar caras que já eram mais velhos no final dos 80’s, como o pernambucano
Chico Science, por exemplo, que chegou a gravar a música
Criança de Domingo, do
Funziona Senza Vapore (projeto de ex-integrantes do
Fellini). É por isso que acredito que, em Brasília, o
Órfãos da Nação, do
BSB-H,
tenha tido um efeito tão forte: veio ao encontro de uma molecada cheia
de energia e, ao mesmo tempo, aberta para novas tendências.
PS: Se o
Órfãos da Nação serviu como elo entre o rock brasiliense dos anos 80 e 90, o disco de estréia da banda
Divine, lançado em 1997, para mim é a ponte entre os anos 90’s e 00’s do rock candango. Mas isso é assunto para outro post.